Eu não me sinto no céu, em completo devaneio, nem voo alucinada
entre a via láctea e o resto do Universo. Eu não me sinto uma mulher completa,
que se conhece, e sabe chegar lá (na via láctea). Eu não me sinto uma cortesã,
com olhar de fogo, lábios doces e mãos carinhosas. Eu não me sinto em sintonia
com o impossível, nem perto de Deus (isso é impossível), nem que talvez eu seja
sortuda. Eu não penso que o prazer é puramente carnal, um órgão completando o
outro, dançando um maxixe alucinado, ao som de suspiros, gemidos agudos,
palavras impronunciáveis, olhos revirados, bocas tortas, pedidos esquizofrênicos,
taras doentias... Não...
O meu orgasmo... É uma passagem de volta para a infância:
das brincadeiras na rua da vó, do gosto das balas azedinhas, do tempo que era
infinito, da alegria de viver – sem saber que está vivo-, dos sonhos em morder
a lua, das bonecas penteadas, das brigas com a mana mais velha, da dança das
cadeiras, dos doces de aniversários, de rir, de abraçar alguém por que se quer
abraçar, de fazer manha para sair da cama no inverno, de fingir dor de cabeça
para não ir a aula, assistir Lagoa Azul, de achar que três da manhã é tarde a beça,
de invejar os lápis de cor da coleguinha, de borrar todo o batom vermelho no
rosto, de desejar ser grande para ter liberdade (inocência), de desejar nunca
crescer para não ser chata (coerência), de apostar corrida com o primo mais
velho e ganhar, essa é a melhor coisa do mundo!! De ir para a casa da vó e
comer muito bolo com Nescau quentinho adoçado com mel ... Acordar todos os dias
com um gosto doce de aventura, de descoberta. Das tristezas infantis (quebraram
minha boneca, pisaram no meu tênis, me chamaram de gorda...). É como viver tudo
isso, sentir cada momento novamente, sorrir, chorar, dançar como criança; acordar
de um transe, após uma transa, como adulta. É triste, mas é viciante.
Puta que o pariu, velho... Alguém por favor transa comigo
hoje!
sugestão musical: Patrice, you always you
Infindo é o infinito
ResponderExcluirTriste é o conflito
Batom vermelho é o bonito
Viciante é esquisito...